Falaram-me de um animal estranho, que se pode encontrar, salvo engano, no bioma ártico da tundra: o Lemingue. É muito simpático, o Lemingue. Trata-se de um pequeno roedor, parente dos hamsters. Mede entre 7 e 12 centímetros, aproximadamente. Dessa adorável criatura já se disse de tudo um pouco. Acreditava-se, no século XVI, que os Lemingues caíam dos céus nos dias de tempestade! Mas, de todos os mitos que cercam esses bichinhos, há um sinistro. Os Lemingues se multiplicam depressa; ao atingirem certo número, no curso de uma tumultuada migração, parte significativa do grupo se precipita no vazio do primeiro abismo que encontra.
Lembrei-me dos Lemingues, a propósito de uma leitura de Walter Benjamin. Benjamin escreveu um texto sobre o caráter destrutivo, onde afirma que uma das características desse comportamento é a confiança. Ora, os Lemingues se precipitam no abismo com a mesma estarrecedora certeza, com a qual nós, do alto de nossa arrogante racionalidade técnica, buscamos água em Marte, enquanto esgotamos (de modo predatório) os recursos naturais desse nosso saturado planeta. Nossa sociedade tem um caráter destrutivo. Nesse ponto, somos tão irracionais e suicidas quanto os Lemingues.
Os Lemingues e seu comportamento suicida constituem uma excelente metáfora da sociedade pós-moderna.
A questão que se impõe é a seguinte: o que fazer, diante desse desconcertante cenário?
Penso haver encontrado, senão uma resposta, ao menos um caminho. Numa passagem memorável da Ética a Nicômaco, Aristóteles enuncia algumas teses sobre a amizade, que vale a pena recordar. Resumo o conjunto dessas teses. Aristóteles afirma que há uma sensação da existência; que essa sensação é, em si mesma, doce!; que há uma equivalência entre SER e VIVER; que nessa sensação de existir, há uma sentimento, especificamente humano, chamado amizade e que esse sentimento se expressa através de um "com-sentir" (no sentido de sentir juntamente com) que um amigo experimenta em relação à existência do outro.
É interessante observar, que a amizade, segundo Aristóteles, pode ser vista como uma potência que instala na existência, dando sentido ao ato de existir. Não é exagerado concluir, na esteira do pensamento aristotélico, que a amizade tem um significado político fundamental, porque os homens devem existir convivendo (existitindo-com) e isso quer dizer a realização e o desfrute de coisas em comum.
O complexo de lemingue repousa, justamente, aí, na nossa incapacidade de reconhecer que a nossa humanidade é algo que não nasce conosco, mas que se constrói através de relações humanas mais estreitas e mais limpas. Mais ÉTICAS, enfim.
Ou mudamos isso, ou o homem do futuro poderá estar muito mais perto do destino trágico dos Lemingues, do que nós.
Os homens não precisam viver como os Lemingues!
É possível e urgente pensarmos em ampliar o campo de significação da amizade, em nossas vidas, num mundo cada vez mais marcado pela competição e devastado pelo poder do dinheiro, se não quisermos acabar como os Lemingues: gordinhos, felizes e satisfeitos com nossas vidas, enquanto saltamos para o NADA!
terça-feira, 19 de julho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
O SOM E A CHUVA
Era no final de 2002. Comunicaram-me que havia uma conferência em Porto Alegre sobre doença mental e que eu fora escolhido para representar a secretaria. Dois dias de exaustivos debates sobre os arcanos da mente humana. Na minha primeira intervenção, disse que o mundo era uma mistura de circo, prisão e hospício; que todos somos loucos, afinal; critiquei a organização e acabei sendo escolhido como orador da turma. No derradeiro dia desse importante evento, fomos convidados a conhecer Gramado. Belíssima cidade! Chegamos ao anoitecer. Um frio danado. Reunimos um grupo e fomos a um bar. Era um local confortável e muito elegante. De repente, os acordes de La Bohème e a voz incomparável de Charles Aznavour se derramaram sobre nós, como o óleo sobre a barba e as vestes de Aarão, para dizer como o salmista. Foi então que uma sensação indescritível me arrebatou. À janela, vi uma chuva fina que descia sobre os telhados e tudo que eu poderia saber sobre o profundo e obscuro significado da minha existência, fez-se luz.
Muito tempo depois, dei com esses versos de Fernando Pessoa:
“O silêncio que sai do som da chuva, espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que se destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou”.
A vida tem um sentido?
Mário Quintana disse num verso que as coisas que nunca esquecemos continuam acontecendo. Aquela noite não terminou para mim. Quando eu sinto o chão escapar debaixo dos meus pés, lembro daquilo que me tocou enquanto eu contemplava, em êxtase, a chuva escorrendo pelo vidro da janela e Charles Aznavour a dizer:
“Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire”
É preciso continuar a crer... na glória!
Muito tempo depois, dei com esses versos de Fernando Pessoa:
“O silêncio que sai do som da chuva, espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que se destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou”.
A vida tem um sentido?
Mário Quintana disse num verso que as coisas que nunca esquecemos continuam acontecendo. Aquela noite não terminou para mim. Quando eu sinto o chão escapar debaixo dos meus pés, lembro daquilo que me tocou enquanto eu contemplava, em êxtase, a chuva escorrendo pelo vidro da janela e Charles Aznavour a dizer:
“Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire”
É preciso continuar a crer... na glória!
sexta-feira, 10 de junho de 2011
CAMÕES, O DITADOR E O CACHORRO FALANTE
O dia de hoje é consagrado a Camões e a Portugal. Camões morreu no dia 10 de junho de 1580, no mesmo ano em que Portugal passava ao domínio da Espanha – situação que duraria 60 anos -, depois que o rei, D. Sebastião, desapareceu no norte da África. É um dia dedicado à lusofonia. É dia de todos nós, falantes da bela e incomparável língua do Padre Vieira, seu Imperador, no dizer de Fernando Pessoa.
Eu tinha esquecido a efeméride. Lembrei-me dela, a propósito de uma notícia que ouvi. É que eu Soube ontem, durante o café, que um certo ditador teria estimulado seus soldados a realizarem estupros como forma de intimidar opositores. O país onde essa monstruosidade teria, supostamente ocorrido, fica, justamente, na África. A memória é assim mesmo. Não sei, ainda, se a denúncia é verdadeira. Talvez seja, talvez não. Nos dias que vivemos, está cada vez mais difícil saber, afinal, o que é verdade, no meio dessa massa de dados confusos, que os meios de comunicação despejam sobre nós. Recuso-me a acreditar na denúncia. Mas, sendo a alma humana um abismo, é perfeitamente possível e esperado que dessas profundidades possam surgir, vez por outra, atrocidades como essa. Não seria nenhuma novidade. Ao contrário do que a nossa vaidade sugere, não há muita diferença entre nós e aqueles trogloditas que deram início a essa pavorosa coleção de ruínas, como disse Walter Benjamin numa passagem magistral de suas teses sobre a história.
E essa é toda a questão MORAL do homem: fazer essa diferença, civilizar as relações no plano da ética.
Nesse sentido, há um comercial de televisão que narra um caso curioso. Um rapaz entra numa casa. Encontra um cachorro simpático com um bilhete. O texto pede que o bichinho seja conduzido para um banho. No interior do carro, o dono descobre que o tal cachorro fala!
A questão filosófica que essa propaganda coloca está nas razões que o animal apresenta para o fato de nunca ter falado antes. Ele diz algo como se até então não tivesse encontrado motivos para falar conosco.
Do exposto, concluo o seguinte: talvez, nossa dificuldade com os animais tenha origem no fato de nós ainda não termos atingido, no nível moral, a “animalidade” deles!
Isso poderia explicar, inclusive, a estupidez de todas as ditaduras!
O que tudo isso tem a ver com Camões, se é que tem, eu não sei. O que sei é que a poesia justifica a dor de se saber humano, mortal e condenado a viver num mundo onde o mal triunfa sempre. O que sei é que Camões é atual e absolutamente necessário para nos dar forças a continuar seguindo a "desvendar a bruma", apesar de tudo.
Eu tinha esquecido a efeméride. Lembrei-me dela, a propósito de uma notícia que ouvi. É que eu Soube ontem, durante o café, que um certo ditador teria estimulado seus soldados a realizarem estupros como forma de intimidar opositores. O país onde essa monstruosidade teria, supostamente ocorrido, fica, justamente, na África. A memória é assim mesmo. Não sei, ainda, se a denúncia é verdadeira. Talvez seja, talvez não. Nos dias que vivemos, está cada vez mais difícil saber, afinal, o que é verdade, no meio dessa massa de dados confusos, que os meios de comunicação despejam sobre nós. Recuso-me a acreditar na denúncia. Mas, sendo a alma humana um abismo, é perfeitamente possível e esperado que dessas profundidades possam surgir, vez por outra, atrocidades como essa. Não seria nenhuma novidade. Ao contrário do que a nossa vaidade sugere, não há muita diferença entre nós e aqueles trogloditas que deram início a essa pavorosa coleção de ruínas, como disse Walter Benjamin numa passagem magistral de suas teses sobre a história.
E essa é toda a questão MORAL do homem: fazer essa diferença, civilizar as relações no plano da ética.
Nesse sentido, há um comercial de televisão que narra um caso curioso. Um rapaz entra numa casa. Encontra um cachorro simpático com um bilhete. O texto pede que o bichinho seja conduzido para um banho. No interior do carro, o dono descobre que o tal cachorro fala!
A questão filosófica que essa propaganda coloca está nas razões que o animal apresenta para o fato de nunca ter falado antes. Ele diz algo como se até então não tivesse encontrado motivos para falar conosco.
Do exposto, concluo o seguinte: talvez, nossa dificuldade com os animais tenha origem no fato de nós ainda não termos atingido, no nível moral, a “animalidade” deles!
Isso poderia explicar, inclusive, a estupidez de todas as ditaduras!
O que tudo isso tem a ver com Camões, se é que tem, eu não sei. O que sei é que a poesia justifica a dor de se saber humano, mortal e condenado a viver num mundo onde o mal triunfa sempre. O que sei é que Camões é atual e absolutamente necessário para nos dar forças a continuar seguindo a "desvendar a bruma", apesar de tudo.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
DEUS E SARAMAGO
Deus existe ou não?
Essa é a pergunta. O resto é perfumaria, como certa vez ouvi de um professor; um modo de dizer que as demais indagações não importam, ou muito pouco, se comparadas a uma determinada questão.
Que pergunta pode ser mais importante do que essa? Se Deus existe, nossa alma é imortal. Se Deus não existe, nossa vida é nada. Ora, entre o infinito e o nada há uma diferença que não é insignificante e é por isso que responder a essa inquietante pergunta me parece radicalmente fundamental.
Essa pergunta tem me atormentado.
Nada é capaz de me causar maior espanto, do que constatar que ela não incomode a outros, principalmente quando esses outros são pessoas inteligentes, como, por exemplo, esse escritor de quem tanto gosto, e que, infelizmente, não está mais entre nós: José Saramago.
Pois bem, não é que Saramago dizia que acreditar em Deus era mais "cômodo".
Cômodo?
Ora,acreditar que o Universo se autoproduziu, como sugerem as teorias mais avançadas da física contemporânea, isso sim é que me parece mais cômodo, porque se Deus existe, cada ato humano é tão decisivamente grave, sob o ponto de vista da ética, que me custa muito compatibilizar essa gravidade com qualquer ideia de comodidade.
Disso eu deduzo um argumento ontológico: a única possibilidade da ideia de Deus, é a existência de Deus.
Uma criatura tão má, como é o homem, não poderia "inventar" nada tão sublime.
A ideia de que o Universo se autoproduziu, para mim, é tão surpreendente como acreditar que um macaco, ao acaso, teria condições de escrever Ensaio sobre a lucidez.
Essa é a pergunta. O resto é perfumaria, como certa vez ouvi de um professor; um modo de dizer que as demais indagações não importam, ou muito pouco, se comparadas a uma determinada questão.
Que pergunta pode ser mais importante do que essa? Se Deus existe, nossa alma é imortal. Se Deus não existe, nossa vida é nada. Ora, entre o infinito e o nada há uma diferença que não é insignificante e é por isso que responder a essa inquietante pergunta me parece radicalmente fundamental.
Essa pergunta tem me atormentado.
Nada é capaz de me causar maior espanto, do que constatar que ela não incomode a outros, principalmente quando esses outros são pessoas inteligentes, como, por exemplo, esse escritor de quem tanto gosto, e que, infelizmente, não está mais entre nós: José Saramago.
Pois bem, não é que Saramago dizia que acreditar em Deus era mais "cômodo".
Cômodo?
Ora,acreditar que o Universo se autoproduziu, como sugerem as teorias mais avançadas da física contemporânea, isso sim é que me parece mais cômodo, porque se Deus existe, cada ato humano é tão decisivamente grave, sob o ponto de vista da ética, que me custa muito compatibilizar essa gravidade com qualquer ideia de comodidade.
Disso eu deduzo um argumento ontológico: a única possibilidade da ideia de Deus, é a existência de Deus.
Uma criatura tão má, como é o homem, não poderia "inventar" nada tão sublime.
A ideia de que o Universo se autoproduziu, para mim, é tão surpreendente como acreditar que um macaco, ao acaso, teria condições de escrever Ensaio sobre a lucidez.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
UM NIILISMO BRASILEIRO?
Nas Memórias de um Sargento de Milícias, o mundo socialmente hierarquizado convive com uma inusitada dialética entre ordem e desordem.
A imagem do major Vidigal, quando aparece envergando parte de seu uniforme, é uma excelente metáfora dessa capacidade de tolerar e conviver com os extremos, que talvez seja uma marca da brasilidade... nosso "jeitinho" de ser-no-mundo.
"O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha e envergou o mais depressa que pôde a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso".
No mundo descrito por Manuel Antônio de Almeida inexiste sentimento de culpa. Onde não existe sentimento de culpa não existe moralidade.
Há uma questão interessante aqui: a "brasilidade" tem uma vocação niilista?
A imagem do major Vidigal, quando aparece envergando parte de seu uniforme, é uma excelente metáfora dessa capacidade de tolerar e conviver com os extremos, que talvez seja uma marca da brasilidade... nosso "jeitinho" de ser-no-mundo.
"O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha e envergou o mais depressa que pôde a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso".
No mundo descrito por Manuel Antônio de Almeida inexiste sentimento de culpa. Onde não existe sentimento de culpa não existe moralidade.
Há uma questão interessante aqui: a "brasilidade" tem uma vocação niilista?
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
DUAS QUESTÕES ACERCA DA INFELICIDADE
O comportamento de desvio e o tema da felicidade estão intimamente relacionados. Tudo que o homem faz, ainda quando se mata, é tentando ser feliz.
O homem pode ser feliz? Essa é uma questão terrível. Aristóteles fez da eudaimonia um tema central de sua ética, mas é necessário enfrentar esse delicado tema: a felicidade é possível?
Duas visões sobre esse tema. A primeira é de Pascal. A segunda é de Primo Levi.
Para Pascal a felicidade humana é impossível. Em seus pensées Pascal nos diz:
“Como a natureza nos fez desgraçados em todos os estados, nossos desejos fantasiam um estado feliz, porque acrescentam ao estado em que estamos os prazeres do estado em que não estamos; e, quando chegamos a esses prazeres, não por isso somos felizes, porque temos outros desejos conforme o novo estado”.
Para Pascal, portanto, é a imaginação a responsável pela incapacidade humana para a felicidade.
Primo Levi é aquele magnífico autor do livro mais comovente que alguém já escreveu, sobre a maior estupidez cometida pelo homem, em toda a sua história – e no auge da modernidade: a shoah. O livro se chama É isto um homem? Nessa obra fundamental Primo Levi afirma:
“Porque assim é a natureza humana: as penas padecidas simultaneamente não se somam em nossa sensibilidade; ocultam-se as menores atrás das maiores, conforme uma lei de prioridades bem definida. É esse o motivo pelo qual ouve-se dizer, amiúde, na vida livre, que o homem é incontentável. Realmente, mais que da incapacidade humana para um estado de bem-estar absoluto, trata-se de conhecimento insuficiente da complexidade do estado de desgraça.”
Complexidade do estado de desgraça... É exatamente esse o busílis da coisa toda. Esse mundo é, essencialmente, um vale de lágrimas, como diz a oração cristã; e nesse vale profundo de dor e desassossego, a única coisa decente que se pode fazer é não contribuir para aumentar, ainda mais, o sofrimento da criatura humana. Isso já resume toda a ética. O resto é perfumaria.
Eu só consigo pensar o papel da polícia e o tema dos direitos humanos nesses termos. Polícia existe para aliviar os aflitos; para defender o homem de outro homem, enfim. É sempre do homem que se trata. Não é do combate ao crime, que se cuida. Isso é besteira. O que se tenta enfrentar é o criminoso. O criminoso é um homem. Essa é a questão.
O homem... Pascal também disse: “Descobri que toda a desgraça dos homens vem de uma só coisa: o não saberem estar tranquilamente em um quarto”.
Desde aqueles tempos, quando ainda abalançávamos nos galhos das árvores, nunca paramos quietos! Somos um tipo de macaco que deu errado. Perdemos o rabo, descemos de nossa árvore e deu no que deu... E ainda vem coisa muito pior pela frente!
O homem pode ser feliz? Essa é uma questão terrível. Aristóteles fez da eudaimonia um tema central de sua ética, mas é necessário enfrentar esse delicado tema: a felicidade é possível?
Duas visões sobre esse tema. A primeira é de Pascal. A segunda é de Primo Levi.
Para Pascal a felicidade humana é impossível. Em seus pensées Pascal nos diz:
“Como a natureza nos fez desgraçados em todos os estados, nossos desejos fantasiam um estado feliz, porque acrescentam ao estado em que estamos os prazeres do estado em que não estamos; e, quando chegamos a esses prazeres, não por isso somos felizes, porque temos outros desejos conforme o novo estado”.
Para Pascal, portanto, é a imaginação a responsável pela incapacidade humana para a felicidade.
Primo Levi é aquele magnífico autor do livro mais comovente que alguém já escreveu, sobre a maior estupidez cometida pelo homem, em toda a sua história – e no auge da modernidade: a shoah. O livro se chama É isto um homem? Nessa obra fundamental Primo Levi afirma:
“Porque assim é a natureza humana: as penas padecidas simultaneamente não se somam em nossa sensibilidade; ocultam-se as menores atrás das maiores, conforme uma lei de prioridades bem definida. É esse o motivo pelo qual ouve-se dizer, amiúde, na vida livre, que o homem é incontentável. Realmente, mais que da incapacidade humana para um estado de bem-estar absoluto, trata-se de conhecimento insuficiente da complexidade do estado de desgraça.”
Complexidade do estado de desgraça... É exatamente esse o busílis da coisa toda. Esse mundo é, essencialmente, um vale de lágrimas, como diz a oração cristã; e nesse vale profundo de dor e desassossego, a única coisa decente que se pode fazer é não contribuir para aumentar, ainda mais, o sofrimento da criatura humana. Isso já resume toda a ética. O resto é perfumaria.
Eu só consigo pensar o papel da polícia e o tema dos direitos humanos nesses termos. Polícia existe para aliviar os aflitos; para defender o homem de outro homem, enfim. É sempre do homem que se trata. Não é do combate ao crime, que se cuida. Isso é besteira. O que se tenta enfrentar é o criminoso. O criminoso é um homem. Essa é a questão.
O homem... Pascal também disse: “Descobri que toda a desgraça dos homens vem de uma só coisa: o não saberem estar tranquilamente em um quarto”.
Desde aqueles tempos, quando ainda abalançávamos nos galhos das árvores, nunca paramos quietos! Somos um tipo de macaco que deu errado. Perdemos o rabo, descemos de nossa árvore e deu no que deu... E ainda vem coisa muito pior pela frente!
terça-feira, 15 de setembro de 2009
A FALÊNCIA FUNDAMENTAL DO HOMEM
Trata-se de uma passagem do romance de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, uma obra extraordinária.
"A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. E foi aí que se produziu a falência fundamental do homem, tão fundamental que dela decorrem todas as outras".
É de fato uma falência fundamental. O humanismo "logocêntrico" principiou pela dominação absoluta dos animais, para depois destituir o próprio homem de sua condição de humanidade. Os campos de extermínio da II guerra mundial são exemplos disso. O iluminismo nasceu com a crença de que a razão poderia construir o paraíso na terra, mas o mundo administrado - esse mundinho cretino no qual vivemos, parece bem mais com o inferno.
E por todos os lados a miséria... Miséria material...Miséria moral... Miséria intelectual... Miséria espiritual.
Que porcaria de mundo nós construímos! Num mundo desses, pretender reduzir a violência é quase uma utopia. É um mundo de bárbaros; construído por bárbaros, para ser habitado por bárbaros. É uma pena. Mas o Apofis vem aí e o calendário Maia está chegando ao final. Graças a Deus! Talvez, começando de novo...
"A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. E foi aí que se produziu a falência fundamental do homem, tão fundamental que dela decorrem todas as outras".
É de fato uma falência fundamental. O humanismo "logocêntrico" principiou pela dominação absoluta dos animais, para depois destituir o próprio homem de sua condição de humanidade. Os campos de extermínio da II guerra mundial são exemplos disso. O iluminismo nasceu com a crença de que a razão poderia construir o paraíso na terra, mas o mundo administrado - esse mundinho cretino no qual vivemos, parece bem mais com o inferno.
E por todos os lados a miséria... Miséria material...Miséria moral... Miséria intelectual... Miséria espiritual.
Que porcaria de mundo nós construímos! Num mundo desses, pretender reduzir a violência é quase uma utopia. É um mundo de bárbaros; construído por bárbaros, para ser habitado por bárbaros. É uma pena. Mas o Apofis vem aí e o calendário Maia está chegando ao final. Graças a Deus! Talvez, começando de novo...
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